O eremita da Serra do Sabiá

O povo de Riacho Seco contava que viveu entre as pedras da Serra do Sabiá um eremita de nome Cristóvão. Como um religioso de personalidade mística, notabilizou-se por adivinhar o futuro das pessoas. Uma vez por ano, Cristóvão descia a ribanceira da serra, arrastando suas alpercatas de couro por entre as juremas e umburanas, para visitar a igreja e beijar os pés da imagem de Nossa Senhora da Conceição. A data escolhida era sempre próxima ao Natal.

Na penúltima visita feita à cidade, o eremita anunciou que a água iria jorrar pelo solo seco do sertão. Não choveu. Não houve trovoada. Nem caiu uma só gota d’água do céu naqueles doze meses. Mas o governador do Estado aprovou um projeto de irrigação das águas do Rio Tocó, e a profecia se realizou. Foi o primeiro experimento de irrigação no semiárido nordestino. Cristóvão, em oportunidades anteriores, anunciou mortes, falou do nascimento de figuras importantes, da visita de Lampião e da pedra de fogo que atravessaria o céu.

Naquela ocasião, o próprio rei do cangaço subiu a serra com o seu bando para ver o velho que fazia previsões acertadas. Lampião, que havia deixado Maria Bonita em uma fazenda de Pernambuco, invadiu as pedras à procura de Cristóvão. O eremita colhia jabuticabas no pequeno roçado em uma área verde da caatinga, ao lado de um tanque de pedra. Sentado abaixo da árvore de frutas pretas, Cristóvão olhou para Lampião, montado em seu cavalo, e antecipou:

— Para Sergipe não vá! É a terra do seu desterro. Se sua teimosia aceitar, o seu caminho será um erro.

— Como você sabe, velho, do meu destino? Se nem minha senhora sabe o que decidi?

— O que veio fazer o capitão, senão saber o seu futuro? Saber se pode ir a Sergipe ou ficar no escuro?

— Então, cabra! Diga-me a resposta! — indagou pela última vez o cangaceiro.

— Como a luz que alumia e é tão forte, como o sul é inverso ao norte, como o que foi e nunca “vorte”, Lampião em Sergipe é morte!

Os cangaceiros caíram na gargalhada. Lampião puxou a rédea do cavalo para a direita, para a esquerda, demonstrando descontentamento com a resposta do eremita e, sem dizer nada mais, partiu pela caatinga, no caminho de descida da serra. Não acreditou nas palavras de Cristóvão e falou sobre isso na derradeira vez em que pisou o solo baiano. Dali saiu com a certeza de que o seu destino era mesmo Sergipe, contra a própria consciência e contra os avisos do homem de barba branca da Serra do Sabiá. Na última descida que fez a Riacho Seco, Cristóvão beijou os pés da imagem da Conceição e alertou:

— Subiu a serra um tal de Lampião, chefe das armas, que não ouviu meu rogo. Dizia ele ter o título de capitão, mas será consumido pelas armas de fogo.

O padre, que acreditava fielmente nas palavras do eremita, indagou buscando confirmação:

— Lampião vai morrer, beato?

Disse Cristóvão:

— Como o sol que faz o dia, como o canto do galo ao amanhecer, como essa estrela que nos alumia, Lampião vai perecer.

— Nossa Senhora! — exclamou uma fiel.

— Morrerá o mais sertanejo e mais feroz. Herói de uma ocupação tão maldita. Calará do sertão a voz, do encouraçado e de sua flor bonita.

E com a mão direita levantada para o céu seguiu arrastando as sandálias até a Rua do Areal, que dava para a ladeira da Serra do Sabiá, gritando:

— Não falo com grande felicidade sobre a megera que no sertão se abaterá. Pois um dia revelei a maior das verdades: Lampião, para Sergipe não vá!

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Sobre mim

Oi, meu nome é Mailson Ramos. Sou autor de 20 livros de ficção, com temática sertaneja. Saiba mais!

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