O primeiro casamento realizado na igreja de Santo Ambrósio, em Bacari, ocorreu numa linda tarde de primavera. O casal, André e Januária, trilharam muitos caminhos até se encontrarem diante do padre Amadeu. Nada mais interessava naquele momento, além das respostas que os dois dariam para chancelar a união. As famílias acompanhavam a cerimônia, com grande destaque para a mãe da noiva, Dona Dinah, que sempre quis ver filha casada.
Quando padre Amadeu perguntou à Januária se ela aceitava casar-se com André, ela disse:
— Não!
— Minha filha, pense melhor! — insistiu o padre.
— Já pensei! A resposta é não!
— Se a resposta dela é não, a minha também é! — gritou André.
— Vocês enlouqueceram?
Dona Dinah saiu com tanta rapidez até o altar que o salto do sapato direito quebrou. Ela andou manquejando por alguns metros na nave até alcançar os noivos. O padre estava tão nervoso que suava, suava, suava. Quando alcançou o altar, Dona Dinah levantou o dedo em riste para a filha.
— Vai casar sim! Gastei uma fortuna com essa festança. Você não vai voltar para casa sem essa aliança no dedo. Diga sim!
— Mãe nós vamos continuar juntos. Só não vamos nos casar! Se a senhora quiser, podemos até usar aliança.
— Que sacrilégio! Se já estão aqui, casem-se! André, diga sim, diga sim!
— Não digo. Só se Januária disser!
— Minha resposta é não. No futuro a gente casa!
— No futuro uma bexiga! Diacho, gastei uma fortuna com essa festa, não foi padre Amadeu?
— Foi sim. Vamos meus filhos… Digam sim!
Januária olhou para André, André olhou para Januária, enquanto todos os convidados assistiam estupefatos. Os noivos deram-se as mãos e desceram os três degraus do presbitério, rumo ao portão principal. Eles estavam rindo e contentes com a decisão de não concretizar o casamento, mas mesmo assim viver juntos. Dona Dinah arrancou os dois sapatos — o normal e o que estava sem salto — e desatou até o portão, fechando-com um barrote atravessado.
— Januária, você não me desafie. Eu te dou uma surra aqui na frente de todo mundo. Lembre-se que uma filha não pode desrespeitar a mãe. O que eu te ensinei sobre isso?
— Não nos importamos com que os outros vão dizer. A senhora pegue essas flores e saia enfeitando a rua. Dissemos não e vamos viver juntos. Isso é errado?
— Diga padre, diga o quanto isso é errado!
— É sim. Vocês precisam da bênção de Deus!
— Vocês estão vivendo no tempo da onça. Nós erramos em vir para o altar sim. Sei que tudo isso custou muito. Mas se a senhora quer a minha felicidade, deixe-nos passar!
Dona Dinah olhou para o padre Amadeu, com a maquiagem borrada e as lágrimas descendo como borras de carvão no rosto vincado. O religioso estendeu os braços, balançou a cabeça e concluiu:
— Se eles não querem casar, mas querem viver juntos, quem vai impedi-los?
— O que as beatas de Bacari, as comadres fofoqueiras e os desocupados nas bodegas vão dizer dessa encenação toda?
— A senhora está preocupada com isso? Nós não estamos!
Januária disse não. André também. Permaneceram ali, todos desiludidos e frustrados pelo primeiro casamento na igreja de Santo Ambrósio que não se concretizou como preconizam as leis do matrimônio. E segundo as livres leis do amor, quem poderia dizer que o casal não seria feliz? Sobrou para Dona Dinah a desarrumação da igreja, manquejando com um sapato sem salto e enxugando as lágrimas pretas e salobras da frustração.
— Podia ter dito não antes de chegar ao altar! — reclamava desolada.