Bigode e o Triângulo das Bermudas

Temístocles da Costa Castro, mais conhecido como Bigode, era um folgazão que fez fama nas imediações de Paripe e Plataforma, no subúrbio ferroviário de Salvador. Dedicado aos amigos e conhecedor de tudo aquilo que existia abaixo do céu — desde o embalsamamento das múmias do Antigo Egito até Sigifredo, o primeiro conde de Luxemburgo —, Bigode mantinha viva apenas uma mentira: espalhava aos quatro ventos que servira à Marinha do Brasil.

Os amigos, que o respeitavam sobremaneira, não ousavam questionar as histórias que ele contava, incluindo as aventuras em alto-mar, mas, com o tempo, passaram a se incomodar com a repetição das narrativas. A última contada por ele acabou contrariando alguns colegas da mesa de dominó. Bigode afirmou que, durante uma viagem ao Triângulo das Bermudas, o navio da Marinha perdeu o contato com as bases e passou uma semana à deriva, em meio a uma neblina que não se dissipava.

— Uma semana à deriva? — indagou um dos amigos, buscando a afirmativa de Bigode.

— Sim! Uma semana. Por sorte, tínhamos suprimentos e um eletricista que conseguiu refazer a comunicação.

— Ficou com medo, Bigode?

— Medo de quê, homem? Naquela circunstância, o marinheiro precisa ter sangue nos olhos. Mas isso não foi o pior! Nessa mesma viagem, um dos marinheiros acordou de madrugada e pulou na água.

— Mas a água não é gelada nesses lugares?

— Miro! Miro! Acorda, filhote! As águas do Triângulo das Bermudas são quentes. O clima ali é subtropical. Então tiramos o colega da água, e ele contou que havia uma mulher no mar, convidando-o para pular. Era uma sereia!

Os amigos caíram na gargalhada. Na bagunça, as pedras do dominó caíram no chão, e Bigode irritou-se com aqueles que faziam chacota. Irritado como nunca havia ficado antes, ele partiu para uma bodega, onde pediu uma cerveja e ficou olhando para os barcos que atravessavam a Baía de Todos os Santos.

A história da sereia foi o suficiente. Depois daquele dia, as chacotas aumentaram, e Bigode até deixou de frequentar com assiduidade o clube dos amigos para evitar dissabores. Sucedeu, porém, que, numa dessas manhãs em que ele apareceu para rever os amigos, um homem estacionou um carro e pediu uma informação:

— Vocês conhecem um senhor chamado Temístocles? Ele tem o apelido de Bigode.

— Está falando com o próprio! — respondeu.

— Bigode! É você, meu amigo? Há quanto tempo!

— O senhor me conhece de onde? Não estou lhe reconhecendo!

— Bigode! Sou eu, Arnaldo! Arnaldo Boaventura, seu colega marinheiro!

Diante da estupefação dos colegas, Bigode atirou as pedras de dominó na grama e, dando uma gargalhada de satisfação, andou em direção ao carro para apertar a mão do chegante. O silêncio na pracinha era inédito. Sem ainda apresentar Arnaldo ao clube dos transeuntes de Paripe, Bigode permaneceu trocando informações com o ex-colega da Marinha.

— Arnaldo Boaventura! Não te reconheci! Você está com os cabelos grisalhos, mais forte… Há quanto tempo não nos vemos, meu amigo!

— Há muito! Não vai me apresentar aos seus amigos?

A vingança de Bigode foi histórica.

— Vocês estão vendo este homem? Ele estava no navio que atravessou o Triângulo das Bermudas; foi ele o marinheiro que caiu no mar e viu — ou pensou ter visto — uma sereia. Sabe, Arnaldo, eles não estavam acreditando em mim.

— Mas é verdade! Há muitos segredos escondidos na imensidão do mar. E Bigode não mentiu. Falou a mais pura verdade. Hoje não posso afirmar se foi um sonho, se eu era sonâmbulo, mas aquele momento nas Bermudas foi muito simbólico.

Um dos amigos de Bigode revelou que alguns deles questionavam a história de ele ter sido da Marinha do Brasil. Arnaldo atestou que a história era verdadeira e que o amigo não costumava mentir. Houve uma comemoração. Os amigos buscaram garrafas de cerveja e beberam em homenagem a Bigode, um homem do mar, conhecedor do mundo.

Mais tarde, Arnaldo levou Bigode à sua casa, de carro.

— Você acha que eles acreditaram? Fui convincente?

— Você foi genial quando contou aquelas histórias da viagem às Bermudas. Acho que meus amigos não iriam gostar se soubessem que você jamais foi da Marinha e não sabe nem onde fica o Triângulo das Bermudas.

0 comentários
0 likes
Post anterior: Januária disse não!Próximo post: O caminho é a leitura

Você vai gostar de ler

Escreva um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Sobre mim

Oi, meu nome é Mailson Ramos. Sou autor de 20 livros de ficção, com temática sertaneja. Saiba mais!

Últimos posts
Categorias