Os cabelos do Beato Josué estavam mais brancos do que nunca. Os fios iluminados, brilhando ao sol, protegiam a cabeça de um homem que profetizava o fim do mundo. Seus pensamentos escatológicos passaram a ser mais frequentes e motivaram os discursos na praça de Morro Verde. Na pequena cidade sertaneja, Josué arregimentou uma dúzia de seguidores que acreditavam nas suas profecias e viviam, como o seu líder, comendo frutas da caatinga, pescando nos açudes e pregando para o povo na saída da missa.
O padre Antero não fazia objeções quanto à presença daquelas pessoas dentro ou fora da igreja. E tratava o beato com muito respeito. Durante as tardes, eles costumavam conversar sobre assuntos religiosos. Naqueles tempos, Josué dedicou-se a alertar o padre com uma profecia: disse que um anjo desceu para anunciar que todas as mulheres respeitadas da cidade trairiam os seus maridos no prazo de uma semana.
— Mas que anjo é esse, que veio anunciar o pecado e a traição?
— O nome ele não disse, o rosto não vi. Na noite da caatinga, o céu iluminou-se como se o dia fosse raiar. E as asas dele bateram entre as nuvens, gerando um trovão que somente eu ouvi. Trovão que faz tremer lajedo de pedra.
— O senhor já contou essa história a alguém?
— Não! Estou alertando o senhor padre, pois essa igreja será tomada de pecado, através daquele confessionário. Ali o senhor ouvirá as confissões mais vexaminosas. Prepare os ouvidos. Mulheres de caráter inquestionável entrarão nessa igreja pela sacristia, às escondidas, para contar-lhe, em arrependimento, as mais escabrosas revelações de pecado carnal.
— E o que devemos fazer para evitar isso, beato?
— Reze a missa! Ninguém poderá impedir a traição dessas senhoras, senão Deus.
No dia seguinte, o padre iniciou um círculo de oração entre casais. Convocou as mulheres e os homens mais influentes daquela sociedade para pregar a favor do casamento e da dignidade. Com muito esmero, o padre pregou entre aquelas pessoas como se o mundo fosse acabar na semana seguinte. Impressionado com as revelações do beato, o pároco levou os fiéis à igreja com um instinto de preocupação e proteção como jamais havia feito.
Quando chegou o domingo, primeiro dia da fatídica semana, o padre rezou a missa, pela manhã, e à tarde, após o almoço, deitou-se da descansar. Por volta das 14h, alguém bateu à porta da sacristia. Nesse horário, a cidade ficava deserta. O padre levantou-se cambaleando, reclamando do sacristão, pois ele costumava sair e não levar a chave da sacristia. Quando abriu a porta, deparou-se com a primeira-dama do município.
— Boa tarde, vigário!
— Boa tarde, Dona Helena!
— Preciso confessar-me!
— Mas agora?
— Ora, padre! E tem momento oportuno para isso?
— Entre! Vá ao confessionário, enquanto pego a minha estola.
A mulher andou até a nave da igreja e entrou no confessionário. Estando ali isolada, com um lenço preto sobre a cabeça, aguardou a chegada do padre, que não se demorou. Ele beijou a estola, pôs sobre os ombros e entrou no confessionário. Dona Helena começou a chorar. Chorou copiosamente. As lágrimas que enxugava com um lenço branco só pararam de cair quando o padre se mostrou apreensivo. Então, a mulher recuperou a razão e disse com todas as letras:
— Traí o meu marido!
— Arrepende-se do seu pecado?
— O senhor não vai me perguntar com quem?
— Não interessa! Arrepende-se do seu pecado?
— Sim!
— Então vá, reze trinta ave-marias e dez pai-nossos. Ego te absolvo a peccatis tuis, in nomine Patris et Filii et Spiritus Sancti!
— O senhor já sabia?
— Não! Como poderia saber?
Simbolicamente, a primeira-dama foi a primeira mulher da cidade a trair o marido e a denunciar a sua falha, em confissão, ao padre. Antero ficou tão perturbado com aquela situação que mandou um menino de recados procurar o beato Josué na caatinga. Passados alguns dias sem resposta e após uma dúzia de confissões de mulheres adúlteras, o profeta de cabelos brancos surgiu em procissão, cercado por seu séquito, na praça da cidade.
— A cidade está um inferno, Deus que me perdoe! — disse o padre ao receber o beato na frente da igreja.
Josué tentou acalmar o pároco, batendo em seu ombro lentamente. Deixou o séquito na área externa e entrou para a sacristia, levando o sacerdote aflito, em silêncio.
— O senhor tem aquele vinho?
— Vinho? O senhor quer vinho?
— Não. Quero que o senhor tome um pouco de vinho.
— Por quê?
— O anjo me visitou novamente essa noite. Falou sobre os homens de Morro Verde.
— Os homens! O que ele disse?
— O senhor não vai acreditar!