Perfídia: O Livro das Traições é uma coletânea de contos cujo tema central é a traição — seja ela amorosa, emocional ou moral. Desde o primeiro conto, o leitor é colocado diante do espelho doloroso das relações humanas quebradas, onde a confiança se desfaz e os segredos revelam feridas profundas.
As histórias oscilam entre o drama e a ironia. Em algumas delas, a traição é vivida como tragédia irreparável; em outras, há nuances cômicas ou até absurdas, como se o ato de trair fosse parte inevitável da condição humana. Mailson Ramos não cai no moralismo simples: ele mostra que quem trai e quem é traído carregam suas próprias angústias e culpas.
Cada conto apresenta personagens que, por um momento, se descobrem vulneráveis. Há dor, choque, arrependimento — mas também indiferença e resignação. A traição, aqui, deixa marcas visíveis e invisíveis; ela perturba mais do que a própria ação, pois altera a forma como vemos o outro e a nós mesmos.
A linguagem da coletânea é elegante e acessível. Mailson Ramos equilibra sensibilidade com franqueza nos diálogos e nas descrições, deixando claro que o conflito moral não exige discursos rebuscados, mas sim verdade nas personagens. Isso torna cada conto direto — mas cheio de eco interno.
Além disso, há uma economia narrativa que não sacrifica profundidade: mesmo textos curtos provocam reflexões sobre fidelidade, desejo, dor e perdão. O autor sugere que a traição não é um ato isolado, mas algo que reverbera entre familiares, amigos e amantes, alcançando quem estava distante da cena principal.
No final, Perfídia nos lembra que traições são feridas que se repetem, que se espalham e que, algumas vezes, só o perdão ou o esquecimento parcial conseguem suavizar. É uma leitura que incomoda, perturba, mas também ensina: nas sombras da traição, conhecemos limites, desejos ocultos e a complicada beleza da redenção humana.