Alecrim Ardente

Alecrim Ardente é uma peça de teatro ambientada no sertão nordestino, escrita por Mailson Ramos. A obra se passa na fictícia cidade de Iaçapé e tem como figura central Berna, uma cafetina que, às portas da morte, descobre ser herdeira de uma grande fortuna. A partir dessa revelação, as tensões sociais, morais e políticas da comunidade vêm à tona em um enredo de forte carga simbólica e emocional.

A peça retrata como a notícia da herança transforma o destino de Berna e a estrutura de poder da cidade. De mulher marginalizada, ela se torna o centro das atenções de políticos, coronéis e religiosos, que tentam manipulá-la para alcançar seus próprios interesses. Essa reviravolta expõe o moralismo hipócrita de uma sociedade que oprime, julga e depois se curva diante do dinheiro.

Berna, porém, não se deixa dominar. Mesmo debilitada, assume o controle da situação e passa a agir com astúcia, impondo suas vontades e se vingando daqueles que a humilharam. O palco se torna um espaço de confronto entre o passado e o presente, entre o poder patriarcal e a resistência feminina.

O texto dramatúrgico é marcado por uma linguagem forte, poética e direta, que mistura oralidade popular e intensidade teatral. Os diálogos carregam ironia, religiosidade e desejo, refletindo a alma contraditória do sertão. A fala dos personagens ecoa o ritmo do povo e dá à peça um caráter profundamente brasileiro.

O cenário de Iaçapé representa mais que um espaço físico: é um microcosmo social, onde convivem ambição, fé e desigualdade. Mailson Ramos constrói ali uma metáfora do Brasil interiorano — um território em que os contrastes morais e econômicos se tornam visíveis nas relações humanas.

A peça também aborda o poder feminino e a libertação. Berna, mesmo fragilizada, desafia as estruturas que tentam silenciá-la e faz de sua condição o ponto de partida para uma reflexão sobre justiça e dignidade. Ela é símbolo de resistência em meio à hipocrisia e à opressão.

Com cerca de 120 páginas, Alecrim Ardente é uma obra breve, mas intensa, que mistura drama, crítica social e lirismo. No palco, a história de Berna transforma o sertão em espelho das grandes contradições humanas, fazendo da peça uma das mais provocantes expressões da dramaturgia nordestina contemporânea.

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Sobre mim

Oi, meu nome é Mailson Ramos. Sou autor de 20 livros de ficção, com temática sertaneja. Saiba mais!

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