O meu sonho era descobrir o que pensam os gatos do alto de sua soberba. Os olhos quase fechados e piscando lentamente são um indício de que eles se sentem acima de nós, pobres humanos. Os cientistas têm se desdobrado para interpretar, conforme as suas teses e estudos, o motivo de tão mordaz sensação de superioridade.
Alguns estudiosos explicam que nossos pets nos veem como animais da mesma espécie, porém, gigantes e imbecis. Por isso, eles precisam nos proteger dos perigos. Esse comportamento poderia ser explicado pela atitude dos felinos que caçam ratos ou lagartixas e os atiram-nos sobre os nossos carpetes; ou o destemor dos gatos ninjas que nos protegem de cobras, escorpiões e ladrões.
A minha percepção da autossuficiência dos gatos chegou a um patamar insuportável quando presenciei uma cena inusitada. Numa dessas noites de sábado, do alto de um telhado, um gato observava o vaivém das pessoas na rua, indiferente aos movimentos e às conversas. Lambia as patas em um sentimento de amor-próprio que aquele telhado poderia desabar em mil pedaços e lá estaria o gato preocupado com os seus pelos e nada mais.
Uma mulher, vestida com roupas espalhafatosas, atravessou a pista para conversar com o animal, demonstrando algum nível de intimidade. Primeiro, ela assoviou suavemente, iniciando um contato que culminou na mais descarada indiferença. O gato virou a cabeça para o lado, como se dissesse: “Lá vem essa estúpida!”. A mulher passou as palavras, chamando o bichano pelo nome:
— Eurípedes! Desça daí!
Aquele gato deveria nutrir um ressentimento mortal contra a sua tutora. Com tantos nomes bonitos e carinhosos para colocar em um animal, ela decidiu-se por Eurípedes. Além disso, ela estava certa de que o pobre animal desceria aquele telhando altíssimo para roçar em suas pernas sem necessidade nenhuma. Mais uma vez, ele a olhou com um desprezo monárquico e virou-se de costas.
— O que houve? — indagou um homem que se aproximou para ajudar a mulher.
— Meu gato. Está lá em cima, naquele telhado.
O homem, com intenções de galanteio, para satisfazer o desejo da mulher de ter o seu gato, subiu por uma escada velha, arrebentando-se entre os restos de cimento seco e ferrugem, conversando com o animal no intuito de chamar-lhe a atenção. Alcançou os últimos degraus quase sem apoio para o pé direito, quando se deparou com o gato soberbo. E estirou o braço tentando agarrá-lo.
O bichano levantou-se lentamente, sem maiores preocupações, olhou o homem com abominação e pulou para outros telhados, brincando de amarelinha entre amiantos, lajes e cerâmicas. Ele nem sequer voltou os olhos para ver como aquele infeliz faria para descer. As preocupações de um gato não estão nesse patamar.