O apito final no futebol de várzea

O torcedor não tem outro assunto para comentar às segundas-feiras além das falhas da arbitragem no futebol brasileiro. Todos nós acreditávamos que, com a instituição do VAR (Árbitro Assistente de Vídeo) e o auxílio providencial da tecnologia, os erros seriam dirimidos e as injustiças cometidas pelo árbitro de campo chegariam ao fim. Instituído no Brasil em 2017, o VAR parece não ter corrigido as imperfeições da arbitragem de campo, do contrário, as acentua.

Isso me faz lembrar de uma épica partida de futebol ocorrida entre Cruzeiro da Malhada e Boqueirão, nas imediações de Arco Verde. O embate entre as duas equipes era tradicional e suscitava um espírito guerreiro entre os jogadores. Naquele campo de chão batido, as estrelas do esporte não brigavam por mídia, fama ou dinheiro: o principal objetivo era levantar a taça que brilhava na carroceira de uma caminhonete C10, o pódio improvisado.

O Cruzeiro da Malhada, entretanto, discordava da escolha da arbitragem. Cândido de Mira era notável torcedor do Boqueirão. Era torcedor, porém, entrou em campo para vistoriar as redes e a marcação, dizendo que entre as quatro linhas prezava pela neutralidade. Como os organizadores deixaram passar e os donos dos times estavam preocupados com o início da partida, Cândido tomou o apito, pegou a bola e foi para o meio do campo à espera dos jogadores.

O primeiro tempo transcorreu sem grandes problemas. Uma falta mais dura aqui, um cartão amarelo ali. A disputa permaneceu acirrada até o final da etapa inicial. No segundo tempo, a desatenção da defesa do Boqueirão resultou no primeiro gol do Cruzeiro da Malhada. Zé Cardoso abriu o placar com uma cabeceada entre três zagueiros. A comemoração do time azul e branco levou uma enxurrada de torcedores para dentro do campo.

Finalizada a festa, o jogo reiniciou. O Boqueirão tentou empatar a partida, porém, o tempo avançava e as suas chances diminuíam minuto a minuto. Aos 43 do segundo tempo, o árbitro anunciou os acréscimos: 15 minutos. A torcida do Cruzeiro foi à loucura. Como o campo não tinha refletores e a noite começava a cair, todos se perguntaram: de que maneira os jogadores iriam enxergar a bola? Então tudo escureceu. A bola continuava a rolar e o juiz, apitando de um lado para o outro, dava a entender que a partida transcorria na mais perfeita normalidade.

Faltando dois minutos para o final do jogo, o Boqueirão empatou com Paulinho Torres, com um chute de fora da área que o goleiro nem sequer enxergou, e virou com uma cabeceada de Jaime. Foi uma confusão de gritos e alegria. Após o segundo gol do Boqueirão, Cândido pôs o apito na boca e encerrou a partida. Enlouquecidos com o resultado, os jogadores do Cruzeiro tentaram interpelar o árbitro com xingamentos, socos e pontapés. De nada adiantou.

Um radialista correu pela lateral para entrevistar o autor do gol do Cruzeiro, Zé Cardoso, e perguntou-lhe o que havia acontecido em campo. O jogador, quase chorando, resmungou:

— Cândido jurou pela alma da própria mãe que só acabaria o jogo quando o Boqueirão virasse o jogo. Infeliz!

 

 

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Oi, meu nome é Mailson Ramos. Sou autor de 20 livros de ficção, com temática sertaneja. Saiba mais!

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