Lupércio da Rocha, novo barão de Riacho Seco, comprou uma imensidão de terras nos arredores de Aurora, onde construiu uma imponente mansão. Casado com a belíssima Estela de Castro, o jovem usufruía das riquezas deixadas pelo pai, o velho Praxedes da Rocha, que falecera a caminho da capital. Ninguém entendeu ao certo o motivo da viagem do velho ao litoral, mas, diante da morte, mesmo as dúvidas mais importantes eram suprimidas pela dor da perda.
Filho unigênito do barão, Lupércio herdou todas as propriedades: desde fazendas e mansões, rebanhos bovinos e caprinos, até a influência política e o assento no conselho de poderosos da região. Com um estilo mais reservado do que o do pai — que, sendo viúvo, vivia as libertinagens de maneira despudorada —, ele amava a mulher e pretendia formar uma família em breve.
Dois meses após a morte do pai, Lupércio inaugurou a mansão com festa e requinte. Convidou os grandes fazendeiros da redondeza, organizou o conselho em volta de si e prometeu apoio político ao atual prefeito, visando compor a imagem de homem influente, tal como fora o seu predecessor. Já passava da vigésima hora quando os convidados começaram a partir. Quando a casa esvaziou, Lupércio caminhou até o portão para observar a estrada e percebeu a aproximação de uma carruagem, que parou ao seu lado.
O cocheiro indagou:
— Onde fica a casa do barão de Riacho Seco?
— Esta é a casa do barão de Riacho Seco! — respondeu Lupércio.
— E quem é o senhor? — retrucou o cocheiro.
— Sou o próprio barão!
— Perdoe-me, senhor. Trago uma carta da senhora baronesa de Riacho Seco!
O cocheiro retirou um envelope do alforje de couro e entregou-o ao homem. O barão leu o remetente e rebateu:
— Há um grande equívoco. A baronesa é a senhora minha mulher, Dona Estela de Castro. Não pode haver outra.
— A remetente da missiva pediu uma resposta. Passarei aqui amanhã, ao raiar do dia, para recolher sua carta.
Sem entender o que acontecia, o barão entrou em casa e instalou-se no escritório. Sob a luz de uma lamparina, rasgou o envelope para ler o conteúdo. Surpreendeu-se com o texto breve, que dizia:
“Aguardei a vossa presença aqui, porém, não obtendo as respostas a tempo, decidi viajar para Aurora. Preocupo-me ao pensar que algo de ruim aconteceu. Assim que tomar conhecimento desta missiva, responda-a para alívio de minhas preocupações. De sua inestimável Luiza.”
Ciente das libertinagens do pai e de suas paixões desenfreadas pelo mundo, Lupércio compreendeu tudo. Praxedes havia se casado na capital e sua esposa viajou em busca de informações. Após saber da morte, exigiria certamente a parte que lhe cabia na herança. O jovem subiu ao quarto, relatou os acontecimentos à mulher e escreveu uma carta de resposta, informando que o velho havia falecido e que sua fortuna fora reivindicada pelo único filho.
A carta foi levada pelo cocheiro na manhã seguinte. Uma semana depois, uma carruagem parou diante da mansão. Lupércio e Estela aguardavam na entrada, apreensivos. Desceu do coche a mais linda das criaturas. Luiza de Montpellier, vestida de luto, tinha os olhos azuis mais brilhantes do que o reflexo do sol nas águas; os cabelos eram verdadeiros fios dourados, perfumados como uma flor em manhã de primavera; a boca era pequena, de lábios carnudos, avivados por um leve carmim.
O barão recebeu-a com mesuras e respeito, levando-a para o interior da mansão, onde ela, aos prantos, falou do amor que sentia pelo velho Praxedes. Não tocou no assunto da herança. Afirmou apenas que o marido havia deixado uma linda casa na capital e fundos para que ela sobrevivesse sem sobressaltos. Por piedade, Lupércio permitiu que a mulher permanecesse ali durante alguns dias. Com a anuência de Estela, que anunciara estar grávida, ele levou Luiza à estação ferroviária de Aurora.
Ao longo dos anos, o barão passou a viajar para a capital, como fazia o pai. Dizia que ia cuidar dos negócios da família no litoral. Comprou uma grande fazenda na zona da mata chamada Águas Claras. Diante da insistência da mulher, que tentava impedi-lo de viajar, ele parlamentava sobre a necessidade que o homem tem de progredir na vida. De filosofia em filosofia, começou a viajar todos os meses. Não demorou a comprar uma mansão na capital, para onde se mudou com a família legítima.
Um dia, estando a baronesa andando em um parque com os filhos, eis que se deparou com a bela Luiza. Ela estava acompanhada de três crianças.
— São os seus filhos? — indagou Estela.
— São! — respondeu Luiza.
— São lindos! Casou-se novamente?
A mulher titubeou, mas respondeu:
— Casei-me com outro barão! O Barão de Águas Claras.
Estela virou-se e caminhou com os filhos, sem olhar para trás.