Cerveja Benites

Dono de uma imensidão de terras no sertão baiano, o major Benites foi um dos primeiros da região a comprar uma geladeira por absorção, que funcionava por meio de um sistema de amônia, água e hidrogênio, sem eletricidade. Foi graças ao eletrodoméstico que ele começou a pensar em cerveja. O desejo de provar a bebida fermentada só aumentou com os anúncios que lia nos jornais da época. E indagava-se se aquela bebida superestimada era tão saborosa quanto diziam.

Durante um ano, enviou recados aos seus amigos fazendeiros do sul à procura da cerveja que habitava os seus sonhos. Dono do alambique que mantinha ao lado do canavial, provou das melhores cachaças que ali se produziam. Bebeu dos melhores vinhos que o seu primo, o comendador Lercaro, enviava de Roma. Contudo, da cerveja ainda não havia provado.

Ao prefeito de Riacho Seco, Castro Rodrigues, que se elegera sob a sua bênção e influência junto ao interventor estadual, Benites fez um pedido: era preciso melhorar as estradas, abrir a cidade para o mundo, incentivar os comerciantes de outras regiões. Com isso, queria dizer que somente assim a cerveja chegaria às bodegas. Seria fácil produzir gelo, mesmo sem uma geladeira.

A longa espera pela bebida acabou em 1936, quando o mascate Jesuíno chegou à cidade com um carregamento de dez cervejas. Ele atravessou as terras em direção à fazenda e entregou as garrafas ao comprador. As moças que cuidavam da cozinha pegaram aquelas unidades como relíquias e as colocaram na geladeira.

— Sacrilégio! — resmungou dona Emerenciana, mulher do major, ao ver o cuidado excessivo com as cervejas. — Parece até que é objeto de outro mundo!

O major, que não gostava de contrariar a sua senhora, falou mansamente:

— E é, Aninha! Sabe de onde vieram essas cervejas? Vocês sabem, meninas? Ninguém sabe! Nem mesmo o mascate. É bebida muito fina, não pode ser degustada por qualquer um.

A mulher rebateu com uma pergunta:

— Se é tão fina e especial, por que não bebe logo?

— Não, senhora! Vamos fazer uma festa no sábado. Chamarei o prefeito Castro Rodrigues, o coronel Vespasiano, o delegado Amintas, o juiz Xavier de Lucena e meu compadre, o comendador Faria. Compartilharei com todos eles a minha felicidade.

Dona Emerenciana, notando que os recipientes estavam com o rótulo apagado, questionou ao major se aquilo não era um indício de perda da validade.

— Não, minha mulher! — respondeu o velho. — Não precisamos saber qual é a marca. E digo mais: essa cerveja se chamará Benites.

Chamou uma das moças e pediu que ela escrevesse, com caneta-tinteiro, no rótulo apagado de todos os cascos, as palavras: “Cerveja Benites”. E gargalhou a tarde inteira, admirando os belos frascos de cor marrom âmbar, nos quais o seu nome aparecia com destaque.

No sábado à noite, o major recebeu os convidados. Entre elogios e salamaleques, o anfitrião palestrou sobre a cerveja, uma bebida que certamente seria a mais consumida nas regiões quentes no futuro, por seu frescor e sabor envolvente. Enquanto os amigos degustavam vinhos e cachaças artesanais, o major preservava o seu paladar.

No auge das comemorações, todos sentados à mesa, as moças trouxeram os vasilhames da cerveja Benites. Elas abriram uma, duas, três e saíram enchendo os copos. Os convidados brindaram e beberam. Houve um mal-estar geral e silencioso. O major degustou a bebida por alguns segundos e, finalmente, fez um comentário:

— É ácida e forte. Pensei que fosse gaseificada, como dizem nas propagandas. Mas é natural e parece nem ter álcool. Vocês, que me dizem?

O prefeito Castro Rodrigues, indisposto, com cara de poucos amigos, resolveu representar a voz e a repulsa dos presentes à mesa. Olhando para o copo, enojado, sentenciou:

— Major, a cerveja Benites é mijo!

0 comentários
0 likes
Post anterior: O tempo e o “Ano Novo”

Você vai gostar de ler

Escreva um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Sobre mim

Conheça os meus livros e encante-se com uma literatura bem-humorada, apaixonante e cheia de emoção. Leia mais!

Últimos posts
Categorias