Uma das maiores degenerações do nosso tempo é a criação de um Deus irascível, capitalista, subornável — capaz de comprar as almas via revendedores comprometidos apenas com os trinta dinheiros; um Deus inigualavelmente cruel, separatista, eugenista, que refuta todas as palavras do Filho que ele próprio enviou à Terra. Dizem que esse Deus é cristão. Não, ele não é. Tampouco o são aqueles que seguem essa interpretação da personalidade divina. Penso assim.
Esse Deus que se compraz com o derramamento de sangue e o sofrimento, com o ódio e o rancor, a divisão e a morte, não é cristão. É uma persona criada para melhorar a vida de certa gente vazia e oca, ambiciosa e mercenária, sem noção da dor humana — cuja insensibilidade faria despertar os instintos de asco até de uma estátua de mármore. Esse não é o Deus que imagino, não é o Deus em que acredito.
Espero, com isso, não ter uma percepção egoísta do Criador, como muitas pessoas têm. Observo e ouço com grande atenção a variedade de pedidos direcionados aos céus. O primeiro exemplo é o do sujeito que entende Deus como um motoqueiro de entrega rápida: ele precisa receber a encomenda (a graça) em primeiro lugar, sem pensar que outras pessoas também fizeram pedidos e estão com fome — talvez uma fome ainda mais forte que a dele.
O segundo é o sujeito que imagina ter a posse de Deus. Quando faz uma oração, está sempre cobrando do Criador uma bênção merecida por privilégio individual. Ninguém pode contra ele, porque Deus está dentro de sua casa. Tento adivinhar se se esconde em um jarro, numa caixa de joias ou no micro-ondas. Muitas vezes, o Senhor é tratado como um rottweiler, amarrado na porta de entrada para impedir a chegada de um elemento indesejado.
O terceiro vê Deus segundo a sua religião — portanto, irascível, como no Velho Testamento. Tal visão retrata um Pai enraivecido, que odeia a humanidade e pinçará, no meio da multidão de seres humanos, meia dúzia de cidadãos como ele: ruins, incapazes de perdoar, amantes do sangue e da morte, odientos e odiosos — a vergonha da raça.
Torço todos os dias para que esse Deus não exista. Ele é anticristão. O Deus que quero encontrar um dia é um Pai, no significado mais extenso da palavra.