Ano Novo, vida nova. Tempo novo. Novas perspectivas. Planos refeitos. Energia revigorada. Um novo olhar sobre a vida, as pessoas e a sociedade. Acredito que a maioria das pessoas pensa assim e não há nada de incomum nisso. Contudo, há pelo menos dez anos, deixei de acreditar nessas premissas. Embora amigos me digam que é preciso estabelecer essa ruptura entre o ano velho e o ano novo para energizar, refazer os planos e repensar a vida, continuo acreditando nas ideias de Einstein.
Em “Como vejo o mundo”, uma coletânea de ensaios e reflexões pessoais que inclui temas sobre tempo, ciência, sociedade e cultura, Einstein aborda questões fundamentais. O que consegui absorver disso foi que, se o tempo é uma ilusão persistente, então o Ano Novo é uma ilusão coletiva consciente: sabemos que nada muda no cosmos, mas escolhemos agir como se mudasse, porque isso nos permite recomeçar.
O reset do tempo
A tensão entre o tempo físico contínuo e o tempo humano fragmentado é uma das grandes marcas da civilização — e o Ano Novo é talvez o exemplo mais universal disso. Entender esse “reset” temporário pode até parecer ruim a princípio, do ponto de vista das emergências de nossa sociedade, mas para mim é um divisor de águas. Acredito que a vida corre como um rio, em águas de corredeira constante, sem impedimentos, sem barreiras.
O amanhã, com a mudança de um algarismo na data e com os sonhos e desejos de renovação, será apenas uma construção sociocultural para estarmos prontos para mais uma batalha. As lutas serão as mesmas: o desejo de conquista através do trabalho, os sonhos quase inalcançáveis, as promessas de vitórias e os medos — inclusive o medo de perder quem mais amamos. Muda-se a data, mas a luta continua.
Pensar o mundo e a vida
O meu pai um dia disse que não era bom pensar demais sobre a vida, pois, segundo ele, “muita gente ficou doida assim”. Era uma construção psicológica de alguém que viveu a simplicidade do seu mundo e nada mais. Longe de ser simplória, essa ideia do meu pai é um fenômeno do ideário de sua geração. Assim ele pensava. Não gostava de análises muito filosóficas e abstratas sobre a vida e o depois, nem mesmo do ponto de vista da religião. E, sendo assim, era feliz.
O meu pensamento, entretanto, tem raízes mais abstratas, filosóficas e revolucionárias. Espero não ser visto apenas como um medíocre pessimista. A vida amanhã terá as mesmas cores que hoje. Os mesmos impostos, as mesmas lutas, os mesmos desafios. Como aquele rio anteriormente citado, a vida corre sem destino. Estarei preocupado com os quarenta anos, com o que já vivi e com o relativo tempo que me falta (espero que mais 40, no mínimo).
A urgência e a emergência do tempo
Atualmente, tempo é sinônimo de urgência. O atraso, o relógio que corre destemperado, o vídeo de 3 minutos que promete ensinar uma receita de cerveja milenar. Além da agonia das nossas horas mais esdrúxulas, temos que correr. Correr sempre, correr o tempo inteiro em busca daquilo que não se vê: o nada. E o rio da vida, cuja correnteza é quebrada simbolicamente no final de cada ano, corre mais rápido. Cabe perguntar mais uma vez: rumo a quê? Não se sabe.
Vivemos dias que se sobrepõem às noites, noites que se apressam para chegar ao dia; uma percepção de que os dias, as semanas, os meses e os anos passam mais rápido. De novo: uma percepção. Não é o tempo correndo, somos nós correndo em um determinado espaço de tempo para realizar o irrealizável, para estar em todos os lugares (redes sociais), para dizer tudo em um texto de 300 caracteres, para escrever livros menores e assistir a novelas curtas que um dia serão, talvez, reduzidas a um mês.
Viver gota a gota
Em uma das passagens mais brilhantes da teledramaturgia brasileira, quando se fazia poesia e reflexão filosófica em diálogo de telenovela, a personagem Tieta diz a Osnar, antes da despedida, que não se arrepende absolutamente de nada do que viveu. Reconhece a vida como um dom recebido, algo que não lhe foi dado para ser guardado, economizado ou vivido com medo. Ao falar em “gota a gota”, ela defende não a contenção, mas a consciência e a intensidade: viver sentindo cada instante, assumindo escolhas, erros, prazeres e consequências.
Eis aí a construção que me agrada. Em Macambira, meu primeiro romance publicado em 2021, escrevi a seguinte frase para a personagem principal: “Tive o destino que a vida me deu”. Ali expresso uma compreensão madura e não ressentida do tempo vivido. A frase recusa tanto o lamento quanto a ilusão de um “depois” redentor, aceitando o fluxo da existência como ele se apresenta. Essa postura revela uma ética do viver em que o valor da existência está na experiência concreta do agora, não em promessas adiadas ou recompensas simbólicas.
Feliz Ano Novo
Falo tudo isso, mas aceito que, para a maioria das pessoas, o réveillon tem uma chave de virada. Para todos vocês, desejo o melhor dos olhares sobre a luta que amanhã virá — e ela virá primeiramente do ponto de vista político. Vocês me conhecem e sabem o que estou dizendo. Ontem, publiquei o livro Leão XIV – A eleição do cardeal Ravasi em inglês e italiano. Um sonho antigo. Não sei por quanto tempo estarei por aqui, ninguém sabe. Mas é sempre bom deixar um rastro de beleza e esperança. Se Deus me permitir, estarei aqui em dezembro de 2026, a falar sobre a vida. Se eu não estiver — duvido muito — os meus livros falarão por mim.