Era carnaval em Salvador. No subúrbio ferroviário, onde a agitação dos festejos de Momo era exibida apenas na andança dos foliões rumo aos famosos circuitos, um grupo de amigos realizava um fichamento memorial sobre a festa. Diante das garrafas sempre brilhantes da Barraca do Ipirá, os homens resgatavam da memória os grandes momentos vividos durante os agitos de fevereiro. A memória era atiçada com doses de umburana, entre o tira-gosto de amendoim e farofa de carne de sol.
— Carnaval como o de 1980 não houve — disse um, com os óculos escuros refletindo a luz incandescente do bar. — Naquela época, o carnaval era brincadeira e havia muito respeito entre os foliões.
Um dos homens, observando a mulherada que atravessava a rua para pegar o ônibus com destino a Ondina, bradou:
— Carnaval foi em 1977. Quantas beldades, quanta beleza na avenida! Dava gosto de ver as moças bonitas desfilar a sua alegria e encanto, dedicadas ao ritmo. Havia respeito sim. O mundo era outro.
Ipirá, nascido na cidade que carregava como nome, colocou uma garrafa de umburana sobre o balcão e, observando a turba passar ao largo da rua, garantiu:
— Carnaval foi em 1990, quando cheguei do interior. Auge do axé music, muita gente bonita, praia, carnaval. Aquela era uma cidade diferente.
Enquanto os amigos buscavam na memória o melhor carnaval de suas vidas, Bigode aproximou-se do bar com os chinelos de couro, arrastados pelo asfalto com barulho para chamar a atenção do povo todo. Vestia uma bermuda jeans surrada e uma camisa com estampa de flores, aberta no peito como o signo do mais vagal entre os vagais. Ao aproximar-se da entrada do bar, cumprimentou os amigos e foi logo pedindo uma dose de umburana para juntar-se aos seus.
— Do que falam os diletos amigos?
— Do melhor carnaval de nossas vidas.
— Ah, eu nem sei como lhes contar o que aconteceu comigo em 1997.
— O que houve, Bigode? — indagou Ipirá, incentivando o homem a soltar o verbo.
— Em 1997, estando eu próximo da reserva na Marinha, entrei em um navio que ancorou no Porto de Veneza. Aqueles ajustes demoraram desde o final de janeiro até o início de fevereiro, quando se comemorou o carnaval da cidade dos canais.
— Carnaval em Veneza?
— Carnaval em Veneza, meu amigo! Diante das festividades, o capitão entendeu que deveríamos comemorar também. A maioria dos marinheiros desceu com o uniforme tradicional branco. Eu, para destacar, usei uma camisa listrada em preto e branco, mangas longas. Também usei um chapéu de palha, ao estilo panamá. Perdido naquela agonia de gente mascarada de um lado para o outro, fui arrastado por um senhor até uma gôndola.
— Uma gôndola, Bigode? — interrompeu um amigo.
— Sim, uma gôndola, aquele barco que passeia pelos canais de Veneza. Pois bem! O italiano esganiçado repetia: Rema la tua barca! Rema la tua barca! Entendi que era para remar. Mas para onde, meu Deus? Somente aí percebi que havia um casal na popa da gôndola. “Rema la tua barca!”, disse a senhora, que usava uma máscara. O homem, agarrado a ela, também estava mascarado e nada falou.
— E para onde tu remou, Bigode?
— Remei até um belo casarão, onde o povo festejava. O casal levantou-se, pulou da gôndola e convidou-me para participar da festa. Sabe como são os italianos em sua fenomenal alegria e cordialidade. Deixei a gôndola no canal e entrei para o casarão. Salão de gente rica, estilo medieval. O champanhe era tão bom que ainda hoje lembro-me do sabor.
— E o casal? Não o conheceu? — interveio Ipirá.
— O casal desapareceu. Como não havia nada a fazer, bebi vinho, champanhe, bebidas finas e comi tantas guloseimas que comecei a perder a razão. Eu já tinha uma idade avançada e não podia beber tudo aquilo. Capotei.
— E então?
Bigode olhou para os chinelos. Parou por alguns segundos a pensar na resposta, com o olhar enterrado no chão da bodega. E respondeu:
— O capitão encontrou-me antes do entardecer, atirado no chão, em frente ao casarão. O italiano, que me entregou a gôndola, estava ali reclamando que eu a havia roubado. Contei que levei um casal até aquele casarão e enchi a cara na festa. O velhote olhou para o capitão e disse: “Qui non c’è stata nessuna festa”. Somente então o homem explicou que aquele casarão era mal-assombrado.
Um dos amigos cismou:
— Se a festa era de fantasmas, como tu ficou bêbado?
— Álcool de fantasma! — gritou Bigode. — Já ouviu falar? Vocês não têm ideia das bizarrices que existem nesse mundo.
Os amigos caíram na gargalhada. Bigode andou até o balcão, bateu o copo sobre a madeira e sussurrou para Ipirá:
— Põe uma umburana para mim. Mas com álcool de verdade!