Sócrates, através dos escritos de Platão, criticava frequentemente os sofistas por adotarem uma postura professoral, cheia de certezas e discursos longos que buscavam impressionar mais do que esclarecer. Ele defendia a maiêutica, que parte da humildade intelectual e provoca o conhecimento por diálogo, não por imposição. Isso nos faz pensar sobre o tom professoral da sociedade atual. Parte-se, assim, do princípio de que o cidadão não sabe de nada ou que está fazendo tudo errado. Dizem que você não sabe o que beber, o que comer, o que pensar da vida, do trabalho, das finanças, do amor, do sexo, dos estudos, da fé e da transcendência.
Aos professores de tudo, deu-se o nome de influencer (influenciador). Embora nem todos os influencers aglutinem um público através do seu tom professoral — e nem todos se destaquem por influenciar sobre futilidades e ideias vazias —, a maioria o faz com total desprezo pela inteligência alheia. Boa parte da população consome horas e horas do dia a arrastar o dedo sobre a tela do smartphone, de baixo para cima, construindo um nada de cognição; pelo contrário, prejudicando-a. O mecanismo que retroalimenta essa construção é replicado quando quem consome passa também a produzir.
Os influenciados que consomem o conteúdo são dedicados cidadãos dispostos a consumir também os ideais. Como caudatários de uma persona que, do alto do Olimpo das redes, dita o estilo de vida, os espectadores parecem sempre dependentes de expressões como “vista isso, não vista aquilo”, “isso é comida boa, isso não é”, “acredite nisso, não naquilo”, “frequente esse lugar, não aquele”. A influência exercida explica a pulverização desse tipo de conteúdo nas redes. Além disso, ele engaja, agrega e monetiza. Principalmente, monetiza.
Deveria ser assustador, do ponto de vista social, um país em que os jovens conhecem mais um influenciador do que um escritor clássico; que uma música de péssima qualidade e letra degradante esteja mais presente nos trendings do que o conteúdo de um livro; e que um doce feito com recheio de morango tenha alucinado as pessoas muito mais do que a discussão de um bom filme, um best-seller ou mesmo um documentário sobre história. Não digo com isso que as discussões sobre doces, músicas ruins e influenciadores não devam existir. O problema é o vazio de temática e o apodrecimento da cognição.
Recentemente, a expressão brain rot (apodrecimento cerebral) ganhou popularidade por descrever os efeitos negativos do consumo excessivo de conteúdo online de baixa qualidade. A ideia é um pouco mais antiga e nasceu com o escritor Henry David Thoreau, que a utilizou pela primeira vez em seu livro Walden, publicado em 1854. Na época, a expressão foi usada para criticar a tendência da sociedade de desvalorizar ideias complexas, comparando-a ao apodrecimento das batatas na Inglaterra.
Sabemos todos que não é fácil escapar aos apelos das redes sociais e até mesmo dos virais conteúdos de má qualidade; porém, o caminho mais curto para o aperfeiçoamento da mente é a arte. Como escritor, acredito que a arte literária seja o melhor dos caminhos (para os que leem e para os que escrevem). A literatura nos oferece uma infinidade de conhecimentos, de ideias e de perspectivas. Leia sempre. Escreva sempre. Exercite a mente. E procure influências que verdadeiramente valham a pena.