Giuseppe Ravasi: o Leão XIV da ficção

Fã de Luís Miguel Rocha e Daniel Silva, expoentes dos thrillers envolvendo papas, escrevi por muito tempo livros com essa temática. Nessa época, para estudar os ritos da Igreja Católica sobre a morte e eleição dos pontífices romanos, li autores vaticanistas como Giancarlo Zizola, Claudio Rendina e Andrea Tornielli. Tenho um conjunto de livros sobre o tema em minha singela estante.

Enfronhado nas tramas do Vaticano, comecei a escrever em 2018 o livro “Leão XIV”. Isso mesmo. O thriller conta a história de um jovem cardeal italiano, Giuseppe Ravasi, que ao assumir o trono de Pedro, busca resgatar a tradição contra as diretrizes do Concílio Vaticano II, causando uma disputa acirrada na cúria, o centro de poder da Igreja Católica.

Leia a sinopse produzida em março de 2018:

O cardeal italiano Giuseppe Ravasi, Patriarca de Veneza, chega ao conclave, em Roma, com a certeza de que se tornará papa. Jovem e obstinado, atrai a atenção dos prelados mais velhos com um discurso tradicionalista e conservador. Escolhido entre os príncipes da Igreja, adota o nome de Leão XIV e inicia um processo de resgate da tradição. Como um perfil de papa titânico, coleciona inimigos em boa parte da cúria e suscita críticas com as suas decisões conservadoras. Porém, conduz a Igreja Católica ao tradicionalismo que os membros mais velhos do Sacro Colégio jamais esperaram rever. Leão XIV ganha de ourives portugueses uma tiara que usará para reafirmar o que ele chama de ‘resgate do primado’ de Pedro.

Deixo para os meus queridos leitores uma parte do primeiro capítulo:

Em Roma, no silêncio da madrugada, passos vagarosos fizeram ranger o piso do Palácio Apostólico. O camerlengo, cardeal Giovanni Battista Pozzo e o decano do Sacro Colégio, Paolo Tommasi, lacravam os apartamentos privados do Papa Gregório XVII. Enquanto os cerimoniários estiravam as fitas nos umbrais da porta dos aposentos, o camerlengo derramava cera quente e marcava com um selo papal as fitas para isolar aquele lugar até a eleição do novo pontífice. Depois do rito, os cardeais se reuniram na mansão de Pozzo, ao lado do Rio Tibre. O silêncio era constrangedor. Naquele primeiro momento, ninguém ousou arriscar uma palavra. Era o temor da má interpretação, mas também um sinal de respeito pelo papa defunto que jazia sob os cuidados dos cardeais Guise e Farina em Castel Gandolfo. Pozzo quebrou o silêncio:

— Péssima ideia teve o cardeal Guise!

— Péssima ideia! — repetiu Tommasi — Um papa enfermo não deveria sair do Vaticano!

— Fomos negligentes. Castel Gandolfo foi uma péssima ideia! Pozzo voltou a repetir a expressão.

— E o translado?

— Acontecerá amanhã, pela manhã. Com cortejo fúnebre e tudo!

— O Papa Orsini tinha carisma! Será um evento sem precedentes. Verão europeu e férias.

— Isso não se deve negar. Mas, nos próximos dias, como se desenhará a figura do novo papa? Todos sabem qual é a nossa função e como devemos desempenhá-la. Já tenho o meu candidato!

— Temos uma questão premente! Aquela questão.

— A continuidade de Gregório XVII ou uma mudança de rumos?

— Exatamente. Melhor cuidarmos do funeral do papa. A esta altura, Castel Gandolfo se tornou uma ilha midiática onde os jornalistas do mundo inteiro se digladiam por informações.

— O senhor está correto! Vamos de helicóptero!

O cardeal Pozzo, de modo imponente, reverenciou o crucifixo que estava sobre a escrivaninha. Os cabelos brancos, rigorosamente penteados e presos sob o solidéu vermelho, davam-lhe um aspecto mais jovial. Era estatuário e andava com bastante imponência, utilizando sempre uma sotaina de cor vermelha. Aceitou a incumbência de ser o camerlengo da Igreja Católica quando faleceu o cardeal que cumpria esta função. Naquele momento, Giovanni Battista Pozzo era o único cardeal que mantinha o seu cargo, afinal de contas, com a morte de Gregório XVII, todos aqueles por ele nomeados perderam as suas atribuições na cúria. E ele, por definição canônica, era o gestor da Igreja no período da vacância do trono papal. De sua belíssima mansão em Roma, o camerlengo partiu para Castel Gandolfo. Retornaria na manhã seguinte, em procissão, seguindo o cortejo fúnebre de Sua Santidade até a Basílica de São Pedro.

(…)

Muito interessante notar como a realidade imitou a ficção em alguns pontos: a necessidade dos cardeais de decidirem se o novo papa deveria ser a continuidade do papa falecido ou encampar uma mudança de rumo da Igreja; o carisma do papa morto e a sua passagem em Castel Gandolfo, fora do Vaticano, obrigando os cardeais a realizar um cortejo fúnebre; o poder do camerlengo durante a Sede Vacante. Espero que um dia possa finalizar esse thriller!

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Sobre mim

Oi, meu nome é Mailson Ramos. Sou autor de 20 livros de ficção, com temática sertaneja. Saiba mais!

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