Há muitos anos acompanho a rotina dos papas. Coleciono livros, revistas e jornais que tratam sobre a história do papado. Estudo figuras de má fama, como Alexandre VI, o papa Bórgia, e também os espetaculares papas da segunda metade do século XX, como João XXIII, Paulo VI, João Paulo I e João Paulo II. Estou sempre regressando ao passado para ver como se comportavam esses pontífices e como a sua influência era fundamental para a representatividade político-diplomática no mundo, além do símbolo religioso.

Em fevereiro de 2013, de férias da faculdade, na minha querida Conceição do Coité, lia com apreensão as manchetes dos jornais italianos e dos sites especializados na cobertura do Vaticano, que caracterizavam a condição do papa Bento XVI como “stanco” (cansado). Não propriamente cansado em seu estado físico, mas pelo escândalo conhecido como Vatileaks, no qual Paolo Gabriele, seu mordomo, foi preso em 2012 por roubar e vazar documentos confidenciais.

Parecia muito claro que o papa vivia os seus últimos momentos sobre a cátedra de Pedro, o que se concretizou naquele final de fevereiro, com a renúncia. As minhas análises apontavam para a eleição de um cardeal italiano, Angelo Scuola, então arcebispo de Milão. Alguns veículos de imprensa chegaram a noticiar que ele teria garantido cerca de 50 votos. Contudo, para surpresa geral, o colégio cardinalício escolheu um papa latino-americano.

Francisco surpreendeu em todos os aspectos: o primeiro do seu nome, o primeiro papa latino-americano, o primeiro entre seus imediatos predecessores a aparecer apenas de batina branca, subvertendo a tradição do uso da mozeta e da estola. Andando com a sua valise e usando os sapatos pretos, um dia após a eleição, retornou para a Casa Santa Marta com os cardeais e dali não mais saiu. Rechaçou a luxuosa habitação papal no Palácio Apostólico e foi o papa das periferias, dos pobres, dos desabrigados, dos imigrantes, das minorias.

O papa abriu as portas da Igreja para todos. Agora, mais recentemente, antes de sua morte, durante a longa internação na Policlínica Gemelli, imaginei o vazio que a sua ausência traria. A morte do pontífice, em 21 de abril, expandiu para as sociedades do mundo, e não apenas para os católicos, essa sensação de orfandade. Não é à toa que a palavra papa também significa pai. Muito mais do que vazio, o falecimento de Francisco expôs um mundo em meio a uma crise de representatividade.

Em stricto sensu, os cardeais elegem um novo papa e assim funciona a alternância de poder na Igreja desde o conclave de Viterbo, na Itália, que durou de 1268 a 1271. Na Itália, se diz que “Morto un Papa se ne fa un altro” (Morreu um Papa, faz-se outro). O conclave elegeu, portanto, em 8 de maio de 2025, o cardeal norte-americano Robert Prevost, que escolheu o nome de Leão XIV. Herdeiro de Francisco, o papa americano foi eleito em meio a uma guerra entre progressistas e tradicionalistas no seio da Igreja. É natural que ele seja comedido, busque a tradição, mas sem deixar de ser moderno.

Enquanto frequenta palácios em Roma e recebe autoridades no Vaticano, sempre vestido de mozeta e estola, diferentemente de Francisco, ele aborda o tema da inteligência artificial e fala dos imigrantes. Leão XIV tenta vencer as crises crescentes no mundo e na Igreja não com a palavra ou discursos incisivos e objetivos, como fazia Francisco. Ele é parcimonioso, tranquilo, lida bem com a liturgia, gosta do contato com o povo e, certamente, em breve, deverá viajar para muitos países do mundo.

Entretanto, Leão XIV não é um príncipe da Igreja, hierático, como Pio XII; bonachão e carismático como João XXIII; também não parece ser dedicado até aqui à intelectualidade como o bresciano Paulo VI; nem se arroga do sorriso e humildade de João Paulo I; não demonstra o poder de João Paulo II, o polonês titânico; em nada se assemelha ao estilo culto e douto de Bento XVI. E essas constatações não são críticas. Talvez Prevost queira seguir um destino diferente dos antecessores e deixar a sua marca pessoal.

O fato, porém, que Francisco fez ecoar a sua voz de modo muito peculiar, falando sobre aflições e medos, esperanças e fé. É natural que as pessoas esperem do seu sucessor as palavras certas e fortes sobre assuntos importantes para o mundo. A voz ouvida de Roma, desde a janela do Palácio Apostólico, é essencial para pautar assuntos realmente relevantes A crise de representatividade entre lideranças do mundo, sobretudo, as autoridades políticas, deixa sempre um espaço aberto para a voz do papa. E acredito que ele possa falar as palavras certas sobre os assuntos mais espinhosos.

0 comentários
0 likes
Post anterior: O caminho é a leituraPróximo post: A profecia do Beato Josué

Você vai gostar de ler

Escreva um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Sobre mim

Oi, meu nome é Mailson Ramos. Sou autor de 20 livros de ficção, com temática sertaneja. Saiba mais!

Últimos posts
Categorias