Em O Sertão dos Coronéis, o autor revisita a figura emblemática do “coronel” no sertão nordestino — não apenas como latifundiário ou detentor de poder político, mas como símbolo de influência social, tradição e opressão. O livro propõe ampliar nossa visão desse personagem clássico, mostrando as várias caras que ele pode assumir.
Os contos destacam que, além da riqueza e das terras, o verdadeiro poder do coronel reside no controle dos outros, nas benesses, nas alianças e na capacidade de manipular votos e favores. Essa dinâmica de mando e dependência é retratada sem romantização — o autor mostra o lado bruto, cruel e também o reconhecido pelos que dependem desse poder.
O cenário sertanejo é parte viva da narrativa: as casas grandes, as fazendas, os currais, as plantações secas, os trabalhadores que labutam sob o sol — tudo se entrelaça com as tramas de poder e conflito. O livro dá voz a quem está abaixo do “coronelismo”, revelando as ambivalências desse mundo.
A linguagem adotada por Mailson Ramos permanece fiel à oralidade e à realidade sertaneja, conferindo verossimilhança aos personagens e às situações. O autor evita o estereótipo superficial e aposta em personagens humanos, com virtudes e defeitos, que vivem sob um sistema que muitas vezes parece imutável, mas que também pode ser enfrentado.
Apesar de o tema remeter à estrutura histórica do interior brasileiro, os contos não se limitam à nostalgia ou à crítica direta — eles convidam à reflexão sobre poder, memória, hierarquia e mudança. O “herói” ou o “vilão” podem todos ser coronéis, ou estar sob o mando deles, e essa ambiguidade é explorada com clareza.
Em suma, O Sertão dos Coronéis é uma leitura relativamente breve (menos de cem páginas), mas com densidade temática. Trata-se de um convite para olhar com atenção para o sertão como espaço de conflitos, legado e transformação — e não apenas de paisagens secas ou mitos. O coronel, nessa obra, é tanto protagonista quanto reflexo de um sistema que ainda ecoa no Brasil.