Cantilenas reúne uma série de contos em que o cotidiano é atravessado pelo fantástico, pelo improvável e pela sensação de que o real guarda mistérios maiores do que podemos enxergar à primeira vista. A partir de ambientes como o sertão e o litoral, o autor costura histórias em que personagens simples se veem em situações que desafiam a normalidade.
Os contos exploram essa intersecção entre o terreno e o extraordinário. Em alguns relatos, o cenário é marcadamente sertanejo — com sol, chão seco e tradições enraizadas — e, em outros, os limites geográficos se expandem até o mar ou o mundo urbano. Essa oscilação de espaço real amplia o efeito dos acontecimentos, fazendo o leitor questionar onde termina o “normal” e começa o “insólito”.
Os personagens são “icônicos” no sentido de que carregam traços humanos muito reconhecíveis — saudade, ambição, desejo de fuga —, ao mesmo tempo em que vivem situações que escapam ao previsível. São seres que reafirmam sua humanidade justamente ao confrontar o excêntrico, o estranho ou o desordenado na própria vida. Essa combinação torna os contos tanto íntimos quanto inquietantes.
A linguagem adotada por Mailson Ramos em Cantilenas é acessível e próxima da oralidade, o que facilita o diálogo com o leitor, mas não abre mão de momentos de lirismo ou de construção simbólica. A simplicidade da fala contrasta com a complexidade das situações apresentadas, e esse contraste é parte da força da obra — o leitor sente que está diante de algo reconhecível e, ao mesmo tempo, surpreendente.
Além disso, a coletânea propõe uma reflexão sobre o que nos faz humanos — ou mesmo “especiais” — a partir do banal: uma família conturbada, um fato improvável, uma espera interminável sob o sol. O sobrenatural ou o súbito maravilhoso entram como metáforas de nossas angústias, nossos desejos e nossos silêncios não expressos. O sertão aparece, então, não apenas como pano de fundo, mas como condição de vida, de passagem e de metamorfose.
Em resumo, Cantilenas é uma obra que, com leveza aparente, vai fundo nas interrogações da existência, do pertencimento e da transformação. Quem lê é convidado a enxergar o mundo ao seu redor com outros olhos — os dos personagens que ousam dar voz ao insólito dentro do ordinário.